A tradução automática vai roubar nossos serviços?

“Olha aí, uma notícia sobre tradução. Toma cuidado.” Geralmente somos a única referência de tradução para nossos familiares e amigos não tradutores, então é sempre possível ouvir algo assim. Ainda mais se for uma notícia “perigosa”.

Pois a notícia em questão é o anúncio feito pela Google de um novo sistema de tradução automática, a famosa Machine Translation que tantos temem. Em um documento (em inglês), o novo modelo do sistema é apresentado, bem como resultados da qualidade dele, mostrando que as traduções feitas são quase humanas. Quase. Por isso o aviso de “toma cuidado” que recebi com a notícia. Algumas pessoas pensam que vamos ficar sem trabalhos de tradução por causa disso (inclusive alguns tradutores).

Eu, pessoalmente, não me vejo sendo substituído por uma máquina tão cedo. Um dia, quem sabe, afinal, do futuro nada sei, mas arrisco dizer que isso não vai acontecer ainda por vários anos. Sabem o que me dá essa confiança toda? São várias coisas, então vamos enumerar.

Para começar, a tradução automática já existe, e já está aí no mercado, gratuita, há anos. E até agora ninguém (que eu conheça) foi substituído por ela; pelo contrário, o mercado profissional só cresce. “Ah, mas esse sistema novo é muito, mas muito melhor do que as ferramentas atuais.” Concordo. E acho bom. Porque a tradução automática mais ajuda do que atrapalha quem traduz. Não devemos ter medo da tradução automática se soubermos aproveitá-la em nosso favor. Mais adiante eu explico o porquê.

Segunda coisa: traduções automáticas não são muito bem recebidas em meios como localização de jogos, tradução editorial e tradução audiovisual, por exemplo (quem souber mais exemplos, comente lá embaixo!). Cada um desses campos tem requisitos muito específicos, como sincronismo labial, distribuição da legenda em duas linhas, limite de caracteres, nomes de personagens, regionalismos, etc. Uma tradução automática não sabe fazer tudo isso sozinha. Então, a menos que alguém crie uma ferramenta específica para essas especialidades, já integrada à tradução automática, isso ainda não tem como acontecer. E, para criar uma ferramenta assim, é necessário programar muuuuuita coisa. Eu mesmo já programei na minha vida passada, e vocês não fazem ideia de quantos buracos negros existem dentro dos códigos dos sistemas que usamos. É um salve-se-quem-puder (há exceções, claro).

Em terceiro lugar, as máquinas não conseguem detectar com facilidade as entonações, ironias e intenções que estão por trás dos textos. Às vezes nem nós conseguimos, senão não existiria a Análise de Discurso da qual tanto se fala hoje.

E, finalmente, eu desafio uma tradução automática a legendar um episódio de RuPaul’s Drag Race com uma qualidade tão alta que possa ser confundida com uma tradução humana. Eu sou superfã do programa e, mesmo assim, não sei como traduzir vários trechos sem pensar e pesquisar muito antes, tamanha a variedade de referências culturais. Imaginem então a máquina, que não compreende essas referências. E pior ainda: além das referências, a máquina também não detecta as entonações, ironias, piadas e todo o resto. E isso só para compreender e assimilar o texto-fonte. Imaginem que a máquina ainda tenha que traduzir com qualidade humana, em vez de quase humana.

Se a tradução feita pela máquina no máximo chega ao quase (por enquanto) e não há jeito plausível de substituir uma tradução humana (por enquanto), por que ter medo dela? Esqueçam esse medo.

A tradução automática serve mesmo é para ajudar o tradutor. Certas frases já têm uma tradução consagrada, como “deseja salvar as alterações em <documento>?”, e se espera que todo tradutor as escreva do mesmo jeito. É para isso que serve a tradução automática, para nos poupar de abrir o editor de texto, digitar qualquer coisa e tentar fechá-lo, só para conferir como era mesmo aquela mensagem que ninguém decora.

Outra coisa boa também é poupar tempo deixando a máquina traduzir frasezinhas como “how are you?” que eventualmente aparecem no texto. E, vejam, a máquina também é boa copiando números e dados para a tradução; já pensou traduzir aquela frase cheia de informações técnicas e com quase nenhuma palavra? É claro que uma tradução automática muito superior vai nos poupar de fazer várias outras coisas menos repetitivas também, mas, ainda assim, nós sempre vamos readequar os resultados para que o texto saia com nosso estilo, nossa personalidade e livre de erros crassos, ou seja, com cara de tradução humana. É sempre importante lembrar que há uma narrativa acontecendo dentro da mente de cada um de nós, o tempo todo, e essa narrativa, como qualquer outra, é linguística, tem estilo, tem piadas, etc. E sempre acabamos imprimindo um pouco disso nas nossas traduções.

Por isso, relaxem. Nossa vantagem sobre as máquinas é termos cultura, narrativas interiores, estilo próprios. Quem sabe no dia em que as máquinas despertarem uma consciência interior elas tenham tudo isso também. Acho que isso vai demorar e, quando acontecer, teremos tantas questões éticas para pensar que os tradutores ficarem sem trabalho vai ser a última delas. Afinal, as previsões eram de que no ano 2000 os carros voariam e que em 2015 teríamos o hoverboard skate flutuante do Marty McFly. Ainda estamos esperando, não é?

Então tem trabalho para todos, fiquem tranquilos.

not-today-satan

Hoje não, demonha. Hoje não.

 

Categorias: Tecnologia

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2s Comentários

  1. Hahaha muito bom encontrar Bianca Del Rio no final de um texto sobre a nossa área! 😀 Concordo com seu ponto de vista. Outra área que não se daria muito bem com a tradução automática é a jurídica! Pra tradutores humanos ela já é bem difícil (reparem nas legendas do Netflix de The Good Wife, é um prato cheio), que dirá pra máquina… The struggle is real!

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