Entrevista com André Gordirro

Conte para nós um pouco da sua trajetória na tradução.

Eu comecei modestamente há uns seis anos, creio eu, traduzindo quadrinhos para a Pixel (Monstro do Pântano e Wildcats do Alan Moore, Ex-Machina do Brian K. Vaughan), e logo pintaram dois convites simultâneos da Editora Objetiva e Galera Record para traduzir livros. Dali não parei mais, e já são mais de 25 títulos traduzidos, entre eles Sniper Americano, Brilhantes, trilogia O Trono do Sol, trilogia Leviatã, Star Wars — Marcas da Guerra e Como Star Wars Conquistou o Universo.

 

Hoje em dia, você é considerado um tradutor especializado no (amplo) universo nerd, e muito dessa especialização se deve à sua paixão por esse universo. De que forma se deu essa especialização e como outros tradutores que têm uma paixão por um segmento específico da literatura podem seguir o mesmo caminho?

Essa especialização começou de criança mesmo, porque desde o início dos anos 1980, lá pelos meus dez anos, eu já lia as (poucas) revistas que tínhamos sobre cinema e cultura pop geral. O jeito foi aprender inglês e começar a ler as publicações — isso muito antes da internet e sites da dita cultura nerd. Depois me formei jornalista, lá em 1994, justamente voltado para esse nicho. O tradutor que tem uma paixão por um gênero específico tem muito mais chances no mercado do que o dito “genérico”, pois é um cara que sabe do que pretende traduzir. Apesar de nerd, eu adoro armas e militarismo, e isso me rendeu o convite para traduzir Sniper Americano, por exemplo, que destoa da fantasia e ficção científica que compõem a maioria dos títulos que já fiz. A dica é: cate esse nicho, mostre seu valor dentro dele, estude e se especialize sempre que o mercado terá um espaço para você.

 

A partir das perspectivas do tradutor e do autor, como você vê a evolução, nas últimas décadas, do mercado da literatura fantástica?

Em termos mundiais, creio que seja o grande motor atual porque é o gênero que complementa a indústria milionária do audiovisual e dos games. Todos os maiores títulos de sucesso do cinema, TV e games são do gênero fantástico. Isso se reflete na literatura também. E em termos nacionais vejo que o preconceito caiu, e hoje fazemos material que não deve nada aos colegas gringos.

 

Existe uma visão bastante difundida nos meios profissionais e acadêmicos de que nós somos coautores, se não autores, daquilo que traduzimos. Essa visão pode ser atribuída, em grande medida, ao pressuposto de que não existe tradução neutra, sem interferência; a tradução, portanto, não seria uma cópia do original, mas sim uma reescrita. Como você enxerga esse papel de coautor que os tradutores desempenham?

Eu acredito piamente nesse papel, e faço eco em também me considerar coautor. Obviamente, a trama não é nossa, os personagens não são nossos, mas a narrativa é dividida, como se eu recontasse a história que ouvi/li, tentando ser o mais fiel possível, mas lapidando detalhes para um interlocutor diferente, que não é da mesma cultura do autor original da história. Muitas vezes, o trocadilho ou ditado que estão no papel é de autoria do tradutor, pois o original é intraduzível e ficaria sem sentido em versão literal.

 

De que maneiras a prática tradutória preparou você para escrever Os portões do inferno?

Voltando à ideia da coautoria, depois de “escrever” uns 25 livros com outras pessoas, me senti à vontade e seguro para contar a minha própria história sozinho. E tendo passado por tantos estilos narrativos, agora de uma maneira mais crítica que a de mero leitor, também me ajudou a encontrar minha própria voz.

 

A experiência de ser autor, por sua vez, deu a você uma perspectiva diferente para traduzir? O que mudou?

Creio que não. A tradução me ajudou mais do que vice-versa; não mudou muita coisa, até porque tenho que conter o André Gordirro mais autoral para minhas próprias obras, e continuar respeitando o estilo dos autores que traduzo, ainda que ache alguns ruins, por exemplo. Não cabe a mim interferir (tanto), apenas adaptar o que não seria palatável em português.

 

Que dicas você dá para os tradutores que, como você, também querem ser autores?

Se seu trabalho é bom e você é bastante solicitado, seja por competência, texto, cumprimento de prazos, há grande chance de os editores abrirem portas para seu voo como autor. Com certeza você já está dentro do mercado como tradutor, conhece pessoas, mantém contatos — vantagens que aquele escritor amador solitário não possui. Eu mesmo, com vinte anos de jornalismo cultural nas costas, só tinha sentido um interesse mediano na minha vontade de escrever um livro, porém, como tradutor estabelecido e conhecido, o interesse dos editores cresceu enormemente. Então, mantenha contatos e faça cada vez mais e melhores traduções.

 

Sobre Os Portões do Inferno

Guerreiros, magos, monstros, fortalezas, cenários fabulosos e combates sangrentos: a fantasia de Os Portões do Inferno, romance de estreia de André Gordirro e volume inicial da trilogia Lendas de Baldúria, é épica, minuciosa e muito divertida. Com um improvável e carismático time de protagonistas – verdadeiros párias que, por acaso, ganham a chance de salvar o mundo –, o livro junta referências históricas e nerds a alegorias da sociedade contemporânea e um alto teor de cultura pop. O resultado, com origem direta no RPG, é um bem-vindo cruzamento entre Os doze condenados e O senhor dos anéis, capaz de juntar a anarquia dos filmes de guerra da década de 1960 e a mitologia fundadora de J.R.R. Tolkien.

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Capa de Os Portões do Inferno

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ANDRÉ GORDIRRO

André Gordirro, carioca, é jornalista, crítico de cinema, tradutor e especialista no (mas não limitado ao) universo nerd. Convocado pela Editora Aleph para representar e mediar os bate-papos dos livros Star Wars, André é também tradutor e responsável por grandes sucessos de fantasia e cultura nerd no Brasil, assinando traduções de Sniper Americano, O Trono do Sol, Brilhantes e Como Star Wars Conquistou o Universo. Os Portões do Inferno é seu primeiro livro.

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