Entrevista com Paulo Henriques Britto

Conte para nós um pouco sobre a sua trajetória na tradução de poesia.

Comecei a traduzir poesia apenas por prazer. O primeiro poeta que traduzi de modo mais sistemático foi Wallace Stevens, e quando a Companhia das Letras — a editora para a qual eu havia começado a trabalhar — soube do meu projeto, ela se propôs a editar a obra, o que acabou acontecendo. Em sua maioria, meus trabalhos em tradução de poesia começaram como projetos puramente pessoais que depois foram encampados por editoras. Ao mesmo tempo, comecei a me interessar pela questão da avaliação da qualidade da tradução de poesia, porque as resenhas que eu encontrava na imprensa pareciam não fazer nenhum esforço de explicar por que uma dada tradução era boa ou má. Uma das poucas críticas detalhadas e racionais de textos traduzidos que encontrei foi o texto em que Haroldo de Campo comparava e criticava diferentes traduções do Fausto, apontando problemas e propondo soluções. Daí surgiu minha pesquisa em avaliação de tradução de poesia.

Qual é o papel da tradução de poesia no meio acadêmico? O segmento tem espaço privilegiado nos estudos da tradução atuais?

A tradução de poesia é a modalidade menos praticada de todos, mas sempre foi uma das mais estudadas, porque representa um caso extremo: potencialmente, toda e qualquer característica de um poema pode dar uma contribuição relevante para seu efeito total, e portanto merece ser recriada na língua-meta. O tradutor tem que levar em consideração o significado, a estrutura prosódica, os fonemas, a distribuição de acentos, até mesmo a mancha gráfica do texto no papel. No Brasil em particular, a importância da tradução poética é muito grande, porque temos uma tradição notável nesse campo, principalmente a partir da contribuição de Augusto e Haroldo de Campos na prática e na teoria.

Como você avalia a evolução da tradução de poesia no mercado editorial ao longo dos últimos anos? Existe uma demanda por tradutores especializados em poesia?

Nas últimas décadas tem-se publicado bastante poesia traduzida no Brasil, se bem que muita coisa importante ainda falta traduzir. A demanda é modesta, mas existe. O mais importante é que o nível médio de qualidade da tradução poética no país tem aumentado bastante. É claro que já tivemos excelentes tradutores desde o modernismo, pelo menos — eu destacaria Manuel Bandeira e Guilherme de Almeida — mas a exigência mínima de qualidade para se conseguir publicar poesia traduzida é agora bem maior do que era há cinquenta ou sessenta anos.

A tradução de poesia difere das demais traduções literárias em diversos aspectos. Quais são os traços que distinguem as tarefas de traduzir um poema e traduzir um texto em prosa?

Eu diria que os problemas são semelhantes, pelo menos caso da boa prosa literária, só que na poesia eles são levados a um grau extremo. Na prosa, ao menos à primeira vista pode parecer que o nível semântico deve receber mais atenção que todos os outros; no caso da poesia, porém, nada semelhante pode ser pressuposto de antemão. Num dado poema, o nível prosódico pode ser o mais importante; em outro, o jogo de consoantes é o que requer mais trabalho de reconstrução.

Haroldo de Campos teoriza que, no delicado embate entre manter o sentido e a forma, é a forma que deve sobrepujar na tradução de poesia. No entanto, como excelente tradutor que é, não é bem isso que vemos na obra dele: Campos consegue estabelecer uma incrível harmonia entre forma e sentido. Qual é a sua posição a respeito desse equilíbrio e o que você procura alcançar em suas traduções?

Como mais de um autor já observou (inclusive eu), na prática Haroldo nem sempre segue à risca suas prescrições teóricas. Apesar de afirmar, junto com Augusto, que o significante importa mais que o significado, tanto Haroldo quanto seu irmão costumam ser muito escrupulosos com relação ao nível semântico. Porém, nos casos em que a forma desempenha o papel primordial, eles reconhecem o fato e dão a ela o destaque devido, colocando o sentido em segundo plano. A meu ver, em poesia cada caso é um caso, e a marca do bom tradutor de poesia é saber identificar qual é o aspecto mais importante num dado poema ou trecho de poema.

Há muitas pessoas que consideram impossível traduzir poemas. Outras acham que só poetas podem fazê-lo. Na sua opinião, por que as pessoas pensam assim? E como os tradutores de poesia podem vencer esse “preconceito”?

Nenhuma tradução recria com perfeição todos os aspectos do original; daí se conclui que a tradução de poesia —ou mesmo a tradução tout court — é impossível. O raciocínio é tão falacioso que é difícil entender como tanta gente, estudiosos da tradução inclusive, não percebe o fato. É só aplicá-lo a qualquer outra atividade humana que o erro se evidencia: nenhum tratamento médico pode garantir com perfeição a saúde do paciente; donde se conclui que a medicina é impossível?

Que dicas você dá para aqueles que querem conhecer mais sobre a tradução de poesia e se especializar na área?

Ler muita poesia, original e traduzida, comparar traduções de um mesmo poema, estudar os textos teóricos mais importantes. Um pressuposto óbvio: é preciso conhecer muito bem poesia, e entender como funcionam os sistemas prosódicos dos idiomas envolvidos.

Paulo

PAULO HENRIQUES BRITTO

Escritor, tradutor e professor de tradução, criação literária e literatura no Departamento de Letras da PUC-Rio, nos níveis de graduação e pós-graduação. É autor de dez livros (seis de poesia, um de contos e três de ensaios). Traduziu mais de cento e dez livros, em sua maioria obras de ficção, mas também obras de poesia e de não ficção. Sua maior paixão é a música.

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