Entrevista com Sabrina Martinez

Conte um pouco sobre sua trajetória profissional e sua relação com a tradução audiovisual.

Eu entrei muito nova na faculdade. Fiz vestibular aos 16 anos e, naturalmente, ainda não tinha ideia do que queria fazer da vida. Na época, Comunicação Social me pareceu o curso que mais combinava com os meus interesses, então, em 1988, entrei para Jornalismo na PUC. Depois de um intercâmbio de um semestre na Universidade de Missouri-Columbia, a tradução começou a me interessar e, durante o estágio no Jornal da PUC, fui cobrir uma palestra que a Monika Pecegueiro do Amaral fez para os alunos de Letras. Saí da palestra completamente apaixonada pela legendagem e decidi ali que o que eu queria da vida era legendar.

Assim que me formei em Jornalismo, em 1992, fui fazer Formação de Tradutores, também na PUC e, em 1994, passei na seleção de tradutores do Departamento de Legendagem da Globosat e comecei a realizar o meu sonho (rs).

No final de 1998, a Globosat decidiu terceirizar o serviço de tradução e extinguiu o Departamento de Legendagem. Alguns dos ex-tradutores da casa abriram empresas e viraram prestadores de serviço, e foi assim que a Gemini nasceu. O primeiro canal a acreditar na empresa foi o GNT, que passou o Late Show with David Letterman, um programa diário, pra gente traduzir. Não era fácil, porque éramos só três pessoas na produtora. Mas deu certo, e a Gemini não parou mais de crescer, o que foi bom até certo ponto, aquele em que você se dá conta de que passou a ter só tarefas burocráticas e acabou virando uma administradora de empresa. E eu não tenho o menor talento pra isso.

Então em 2013 eu saí da empresa e virei, pela primeira vez na vida, tradutora freelancer. Hoje eu trabalho em casa e adoro a minha rotina. É uma vida bem mais tranquila.

 

Seu nome é referência na área de legendagem há muitos anos, principalmente por conta de sua experiência em sala de aula. Em sua opinião, quais são os maiores entraves na formação dos tradutores da área? Ainda falta espaço para o segmento no ensino acadêmico?

A boa notícia é que as disciplinas de Tradução Audiovisual (TAV) estão se multiplicando nas universidades de todo o país, graças ao interesse crescente dos estudantes de tradução pela área, e hoje a disciplina já é reconhecida pela academia como vital para a formação dos tradutores. Quanto ao principal entrave, acho que, apesar do reconhecimento, as horas dedicadas ao ensino de TAV ainda são muito reduzidas. Há universidades que apresentam a disciplina de forma muito introdutória, sem ao menos disponibilizar um software específico de legendagem aos alunos. Antes isso era um problema porque não existiam softwares gratuitos. Mas hoje há várias opções. Talvez a formação de professores de TAV seja o maior problema da área.

 

Durante muito tempo, a tradução audiovisual foi vista por muitos como uma simples porta de entrada no mercado. Já podemos dizer que há espaço para especialização na área?

Bom, eu percorri o caminho contrário. Continuo na porta de entrada até hoje (rs) e sempre procurei me especializar. Depois da Formação de Tradutores, fiz Especialização e Mestrado na PUC, sempre com foco na TAV. Ou seja, espaço para especialização sempre há, principalmente no campo da pesquisa acadêmica, isso só depende da vontade de cada um.

 

Muitos tradutores consideram o fansubbing uma forma ilegítima de se trabalhar com tradução audiovisual. Como você vê essa atividade? Como você lidaria com a experiência de fansubbers numa seleção de currículos, por exemplo?

Já recebi muitos currículos de fansubbers, e posso dizer que não dá para generalizar. Há tradutores amadores muito bons e também há os muito ruins, que têm um português capenga e acham que traduzir é colar a transcrição de um vídeo no Google Tradutor. Tirando a polêmica questão de eles muitas vezes usarem produtos audiovisuais protegidos por direitos autorais, acho a experiência com legendagem amadora em si uma vantagem, e pode ser uma boa porta de entrada para o mercado.

Mas faço algumas ressalvas. A primeira e mais importante é a questão ética. Um fansubber que se apresente ao mercado pode ser mal visto pelo fato de legendar conteúdo ilegal. Quem quiser mesmo se profissionalizar precisa saber que todo material audiovisual que for receber para legendar é protegido por contratos de confidencialidade e não pode ser divulgado de forma alguma. A minha sugestão para quem quiser treinar é legendar vídeos livres, como as palestras do TED, por exemplo. Além de praticar, o tradutor amador estará fazendo um importante trabalho voluntário, o que conta pontos no currículo.

A segunda ressalva é a questão do “vício”. Hoje em dia é muito fácil aprender a manusear um software através de tutoriais e manuais disponíveis na internet, ou até sozinho. Só que geralmente esses tutoriais são criados também por amadores que fuçaram o programa até desenvolver um método próprio — e geralmente nada eficiente — de trabalho. Eu sei disso porque já recebi em meus cursos alunos com muitos vícios, justamente por terem aprendido sozinhos ou com esses tutoriais. E reverter esses vícios às vezes é mais complicado do que ensinar do zero.

 

Com o surgimento da TV por assinatura e das plataformas de VOD no Brasil, tivemos um aumento considerável na demanda de tradução para legendagem e dublagem. Como você analisa essa evolução do mercado de TAV nos últimos anos e como você espera que o mercado vá se comportar?

Fico muito feliz, porque o aumento da demanda só valoriza a nossa profissão e gera mais interesse pela TAV. É claro que, num primeiro momento, a qualidade da tradução sofre, porque a demanda é tão grande que não há profissionais suficientes para dar conta do volume. Mas isso já começa a mudar. Na Netflix, por exemplo, que foi muito criticada pelas legendas em português que disponibilizava no início, já se nota uma melhora considerável na qualidade da tradução.

Em relação à dublagem, muita gente reclama do avanço dessa modalidade de TAV, que estaria prejudicando o conteúdo legendado. Mas eu não vejo assim. Alguns canais e serviços de streaming ainda não oferecem toda sua programação estrangeira com as duas opções, mas a tendência é que isso aconteça, o que é muito positivo para todos os tradutores audiovisuais.

Que características fazem com que um tradutor se destaque no mercado de TAV atualmente, e que dicas você dá para aqueles que querem entrar nesse mercado?

Além de todas as habilidades necessárias a qualquer tradutor, o tradutor audiovisual tem que ter, em primeiro lugar, uma ótima audição. Nunca é demais lembrar que o original na tradução audiovisual é o vídeo (em conjunto com o áudio, naturalmente), e o roteiro escrito é muitas vezes incompleto ou inexistente. Então, se não tiver um bom ouvido, a chance de cometer erros de tradução aumenta muito.

Ele também precisa ter noções de ritmo para respeitar as pausas no discurso e a velocidade da fala dos personagens, habilidade em edição/resumo de texto, domínio de ferramentas tecnológicas, capacidade de adaptação a novas tecnologias, precisa saber trabalhar com prazos curtos e é bom ter noções técnicas no campo do audiovisual e da mídia digital.

Quem quer entrar nesse mercado precisa, em primeiro lugar, valorizar o ofício da tradução. A visão do senso comum ainda é aquela de que traduzir é fácil. Qualquer um faz, até um programa de computador. É claro a tradução automática funciona bem para auxiliar algumas modalidades, mas na legendagem nós traduzimos diálogos, falas espontâneas, nas quais há gírias, hesitações, interrupções, contradições e por aí vai. Não é nada fácil traduzir isso, ainda mais com as limitações de espaço e tempo que a legenda nos impõe.

Então o interessado nessa área deve procurar uma formação em tradução e cursos específicos, deve participar de congressos e estar por dentro das novidades tecnológicas. E, principalmente, precisa investir no conhecimento da língua portuguesa padrão, que é a maior deficiência apontada tanto por professores de tradução como pelos grandes clientes.

SABRINA MARTINEZ

Tradutora e revisora de legendas desde 1994, é especialista em Tradução e mestre em Estudos da Linguagem (Tradução) pela PUC-Rio. Desenvolveu o método didático dos cursos do GTC Treinamento e atualmente leciona a disciplina Tradução Audiovisual da Graduação em Letras e o módulo de Legendagem da Especialização em Tradução da PUC-Rio. Sabrina adora viajar e nadar, e acha que todo tradutor deve praticar esportes, pelo menos para evitar LER.

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