Entrevista com Sheila Gomes

Conte para nós um pouco sobre a sua trajetória na tradução.

Meu nome é Sheila Gomes e sou tradutora há quase 30 anos do par inglês-português, especializada em localização de sites, software e jogos. Participo sempre que posso dos fóruns e comunidades virtuais, além de organizar eventos para reunir tradutores e intérpretes em Curitiba/PR, onde moro. Também tenho bastante interesse na área educacional, em que trabalhei por muitos anos. Aliando a vontade de ajudar e a de voltar a essa área, criei junto com vários colegas o TIME (Tradutores e Intérpretes Multiplicando Experiências), para fazer apresentações on-line gratuitas, sobre temas ligados à profissionalização de tradutores e intérpretes. Mais tarde veio o Multitude, inicialmente uma empreitada comercial, que acabou evoluindo para uma plataforma de curadoria de conteúdo. Também sou promotora e divulgadora da CAT tool OmegaT, uma ferramenta gratuita e de código aberto, a principal que uso já há alguns anos. Entrei na equipe de desenvolvedores como apoiadora e tenho duas páginas oficiais no Facebook que publicam novidades e dicas de uso do programa.

Meu envolvimento com a tradução de jogos me levou a participar do grupo de localização da Associação Internacional de Desenvolvedores de Jogos (IGDA LocSIG). O objetivo do grupo é reunir informações para aspirantes e profissionais da área e construir uma comunidade que valorize e use melhores práticas e processos. Entre os projetos está a organização do LocJAM, um concurso mundial e anual de localização de jogos, on-line e gratuito, que pode ser uma boa porta de entrada para a profissão.

Aqui em Curitiba, temos também encontros mensais presenciais para tradutores, intérpretes, estudantes e curiosos de qualquer área, que queiram compartilhar ideias e experiências para tornar nosso cenário profissional cada vez mais favorável a todos os envolvidos. Foi a partir desses encontros, chamados de Barcamps, que criamos o Coletivo IdenTIdade, reunindo também iniciativas de outras cidades (Porto Alegre, Rio de Janeiro, Maringá, São Paulo e Recife).

 

A localização de jogos já é um segmento bastante amplo no Brasil, mas ainda conta com relativamente poucas referências no mercado, em diversos sentidos: profissionais de renome, cursos de formação, agências especializadas, etc. A que você atribui essa “limitação” relativa da localização de jogos? O que precisa ser feito para que o cenário seja revertido?

Acredito que essa limitação se deva ao fato de a maior parte dos jogos mais famosos (conhecidos pela sigla AAA) ser produzida no exterior. Os grandes estúdios enviam os jogos para agências locais de seus países, ou para grandes agências internacionais de renome, e estas distribuem o trabalho para tradutores de vários idiomas ou contratam agências intermediárias nos países dos idiomas desejados. Então, até chegar no localizador, os valores vão sendo achatados, o que acaba atraindo e mantendo no mercado muitos amadores, mas poucos tradutores profissionais. Acabamos buscando as agências direto no exterior, para ser mais bem remunerados e ter acesso mais próximo aos estúdios. Isso facilita muito o processo e é financeiramente mais compensador, para ter uma prática profissional sustentável.

Além disso, os desenvolvedores de boa parte dos jogos produzidos no Brasil não vêm de uma cultura de valorização da localização (muitas vezes sequer a conhecem). Muitos usam o que sabem do idioma no qual querem ter seu jogo traduzido para localizá-lo por conta própria. Mas conhecer idiomas, ou mesmo ser bilíngue, é bem diferente de traduzir. E há demanda para boas localizações, especialmente no mercado de jogos para dispositivos móveis, que cresce a olhos vistos. Por exemplo: na Google Store, a forma com que o público classifica os jogos define quais terão destaque e, consequentemente, quais terão maior promoção de venda.  Em uma pesquisa recente, havia 91% pedidos de localização ao português brasileiro, 5% de clientes reclamavam das traduções existentes e apenas 4% elogiavam. Como apenas jogos com 4 estrelas ou mais são postos em destaque, fica claro que a localização tem um papel importante nisso e pode ajudar os desenvolvedores a entender seu valor.

Uma possibilidade para reverter essa situação é criar pontes, para haver mais contato com o “lado de lá”: conhecer os profissionais e os meios onde o desenvolvimento de jogos acontece e é veiculado, além de orientar os estudantes da área, nas faculdades e Game Jams, por exemplo, sobre as melhores práticas. Mostrar o que podemos fazer para que os jogos que eles criam atinjam um público maior e da forma certa. Mas também perguntar como podemos nos aliar para criar processos em que todos estejamos envolvidos e trabalhando em conjunto desde o início dos projetos de desenvolvimento.

 

Muitos tradutores deixam de aproveitar uma primeira oportunidade na área de localização de jogos porque acreditam ser necessário saber programar ou, ainda, ser gamer. Quais são os atributos básicos para o tradutor ter alguma chance no mercado? E quais características podem diferenciá-lo dos demais profissionais no mercado?

Ser gamer não é um atributo imprescindível de um bom localizador. Ajuda, sem dúvida, pois, como jogador, a pessoa tem um conhecimento em primeira mão dos universos que traduzirá, e assim pode chegar mais perto de saber o que realmente é esperado de uma boa localização. O que não pode faltar é: persistência, curiosidade, disposição para o aprendizado contínuo, ter jogo de cintura para trabalhar com pouco ou nenhum contexto, ter afinidade com tecnologia, acompanhar o mercado e suas tendências, participar de eventos da área, não só de tradução e localização, mas também de desenvolvimento de jogos, na medida do possível. E deve ter as habilidades de todo bom tradutor: conhecer o idioma alvo tão bem quanto, ou ainda mais que o de origem (já que é no primeiro que o seu trabalho será lido), entender o registro adequado ao público e à ambientação do jogo, ter flexibilidade para usar os recursos à disposição ao tomar decisões, saber comunicar suas necessidades sem antagonizar colegas, gerentes de projeto e/ou clientes… Enfim, é preciso ter uma postura profissional.

 

Que dicas você dá às pessoas que querem ingressar no mercado de localização de jogos? E aos profissionais que já estão inseridos nesse mercado, mas que querem crescer ainda mais?

Que entendam o mercado, e não apenas os jogos. Que leiam muito, não só sobre teoria, mas também sobre como os jogos são criados, sobre experiências de localizadores. Participem de eventos e grupos, apareçam de forma profissional no mercado. Mostrem interesse na área de forma assertiva, não apenas consumindo, mas também criando conteúdo crítico, informativo, que demonstre seu domínio de forma clara, sem se deixar levar pela tentação de ditar regras e arvorar-se de autoridade no meio (em blogs, por exemplo). Cada localizador pode colaborar com sua experiência única e assim ajudar a mudar o caráter desse meio ainda dominado por amadores bem-intencionados, mas pouco preparados, que acabam sendo alvo de empresas com práticas duvidosas, exploratórias e pouco profissionais.

 

Além de se dedicar à localização de jogos, você é conhecida no mercado da tradução por seus inúmeros projetos, entre os quais se destaca o Multitude. Em que momento da sua carreira você teve o ímpeto de lançar projetos que dialogam com a tradução?

Eu sempre estive envolvida com comunidades e projetos voltados ao coletivo. Desde a época em que era professora, na faculdade, em grupos independentes, associações de várias áreas, movimentos populares. Atuando na sala de aula, vi de perto o papel dos filtros afetivos no estímulo do aprendizado e da colaboração, e como isso se estende a outros aspectos da vida e do trabalho. Já vi e vivi muitas situações positivas que resultaram do trabalho coletivo e do compartilhamento do aprendizado. Acredito que todos somos responsáveis por manter e aprimorar o ambiente em que vivemos e o mercado no qual trabalhamos. Isso pode ser expresso em nossas ações e se reflete em tudo que fazemos. A ajuda prestada hoje é o retorno positivo de amanhã, e tudo que fazemos junto com os outros, perguntando o que é importante para cada um, respeitando suas vontades e limitações, inspira boa vontade e retroalimenta uma espiral de crescimento para todos os envolvidos.

 

Quais são os benefícios de se dedicar a uma iniciativa e colaborar com o mercado da tradução como um todo? E quais são as desvantagens?

Só há benefícios. Mesmo quando parece que o que fazemos não tem retorno individual e demanda tempo que poderíamos estar dedicando a atividades remuneradas, o cenário profissional ganha com cada contribuição para aprimorá-lo, e isso acaba refletindo em melhores condições para todos e cada um. É um trabalho que demora a render resultados visíveis, mas que traz benefícios indiscutíveis em médio e longo prazos. Além disso, reforça os valores que todo bom profissional deve cultivar: a autonomia, o trabalho em equipe, a busca de soluções em conjunto, a capacidade de comunicação e negociação, o estabelecimento de parcerias e a exposição controlada em um meio receptivo. Vários dos participantes, depois de algum tempo, relatam que tomaram coragem para se expor mais, se apresentando em eventos, realizando ações promocionais do seu trabalho, criando cursos e coisas do gênero.

 

A seu ver, no momento, o mercado carece de algum tipo específico de iniciativa por parte dos tradutores?

Sim, mas é importante tentar conhecer ao máximo as situações individuais, sem fazer suposições que partam apenas da nossa própria experiência. Este é um mercado em que os caminhos de entrada e manutenção na profissão são muito variados, e é muito difícil achar que o que se aplica a um grupo pode ser estendido a todos. Apenas supor o que os outros podem e devem fazer não estimula a participação e a iniciativa em projetos. É preciso levantar dados concretos, a partir do quais se possa ter uma visão mais realista do cenário profissional e elaborar projetos que contemplem a todos. Isso pode partir de associações, mas não necessariamente. Nosso grupo de Curitiba, por exemplo, já se deparou com uma série de situações que podíamos resolver de forma direta, e assim elaboramos ações para lidar com elas. Tudo na base da conversa e da deliberação coletiva. E o mesmo está sendo feito em outras cidades que agora também promovem encontros independentes.

 

Que dicas você dá aos leitores que estão com aquele projeto colaborativo bacana na gaveta, mas que acham que é “perda de tempo”?

Que conversem com amigos e colegas sobre a ideia e, se fizerem parte de um grupo de tradutores, que apresentem a ideia para pedir a opinião deles. Muitas vezes, tudo o que a gente precisa é de um par de olhos mais distantes para avaliar a ideia com um pouco mais de isenção. E o exercício da troca de opiniões pode trazer mais subsídios para “arredondar” o projeto, além dos possíveis primeiros parceiros. Muitas vezes, a percepção que temos sobre um projeto pode ser interpretado de formas diferentes quando perguntamos o que os outros acham, e novas informações podem ser adicionadas. E ter em mente que o bom pode ser bem melhor que o ótimo, pode ser o impulso final necessário: às vezes somos perfeccionistas demais, especialmente quando guardamos as ideias só para nós mesmos. Deixar que as ideias vivam e respirem na realidade do crivo alheio pode ser o início de belos projetos que ajudem muita gente, e quem sabe, mudem o panorama da tradução.

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SHEILA GOMES

Tradutora e localizadora de sites, software e jogos, é geek e introvertida assumida, que adora criar e estar em comunidades. Promove e divulga a CAT tool gratuita e de código aberto OmegaT e tem um portal de informações para tradutores e intérpretes, o Multitude. Faz parte do Coletivo IdenTIdade, um grupo independente que promove melhores práticas para basear a construção de nossa identidade e visibilidade profissional. Ama gatos e brigadeiro (nessa ordem, dependendo do volume).

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