O ego ninguém traduz

o ego ninguém traduz FINAL

Antes de começar a falar sobre minha experiência como editora e meu trabalho com tradutores, gostaria de frisar que tudo o que eu disser NÃO poderá ser usado contra mim, simplesmente porque eu não apenas faço parte da Sociedade Secreta do Profissional do Livro como sou a fundadora, cofundadora, CEO, presidente, diretora financeira, gerente de marketing e estagiária de RH. Ou seja, quando você sequer imaginar a possibilidade de usar meu nome em vão, saiba que existe um lugar especial no inferno dos infernos reservados para pessoas que 1) não gostam de mim, 2) maltratam gatinhos e 3) dobram o livro.

Dito isso, posso começar a falar sobre um assunto muito divertido que jamais semeará a discórdia, que é a autoria do tradutor. O que é isso? O tradutor é autor do texto? Coautor? Até onde vai a liberdade daquele cara (ou moça – não sejamos sexistas) que adapta uma história para um idioma? O que ele deve levar em conta? O editor respeita esse trabalho? O tradutor fica chateado quando há muita interferência da editora que o contratou? Quando o editor pode interferir? Existe uma troca? Ou nada é justo e a vida de um tradutor é um turbilhão de memes de cabeças explodindo?

Quantas perguntas! E lhes asseguro que são todas excelentes e cabeludas, mas não impossíveis de se debater. Tenho certeza de que o Google e a Wikipédia sabem muito mais que eu e poderiam esclarecer suas dúvidas com mais pontaria, mas garanto-lhes que a cronologia, a disposição e o critério dos meus pensamentos são, no mínimo, interessantes e dignos de internação e talvez, só por isso, vocês se entretenham mais lendo este artigo.

Agora vamos ao que interessa…

O tradutor é um cara (ou moça) incrível! Adoro tradutores. Sem eles, minha carga horária de trabalho provavelmente seria de 10.500 horas por dia, o que significa que todos os editores do mundo morariam em Vênus, onde o dia é maior que o ano, só pra dar conta de tudo. Um bom tradutor é aquele que conhece a editora para a qual trabalha. Ele sabe exatamente o público a que se destina o livro que vai traduzir, a linguagem mais apropriada, o manual de padronização de cada editor, os poréns de cada idioma e, principalmente, ele entende melhor que ninguém a humanidade. É um mestre da psicologia, da antropologia, da sociologia e principalmente do neologismo.

Sim, o tradutor é pica das galáxias e todos nós amamos os tradutores, mas há algo que precisa ser dito: se o tradutor é pica das galáxias, o editor é O UNIVERSO E TUDO MAIS!

E o universo respeita a galáxia? É claro. A galáxia faz parte do sistema; sem ela, fica tudo breu, sem vida, sem luz. Mas o universo é que decide onde expandir o brilho com mais estrelas e onde inserir buracos negros para apagá-lo. Nossa! Tô até filosofando. Olha o que vocês me fizeram fazer!

A questão é que o tradutor é de fato o coautor do livro, mas o editor é quem vai, com muito carinho, lapidá-lo, sempre respeitando o original, é claro! É verdade que o editor interfere muito? Às vezes, sim, às vezes, não. E nem sempre é por motivos de tradução ruim ou de editor sem noção. Como editora, digo: antes de mudar qualquer coisa, a gente reflete sobre as palavras escolhidas pelo tradutor. E, como tradutora, acrescento que: quase sempre há um motivo para uma palavra estar ali e não outra, então dou minha palavra (que não poderá ser usada contra mim) de que nada é feito levianamente.

Ora, tem editor que gosta de mudar por mudar e “prefere” o texto de uma forma ou de outra, sem motivo aparente, e nem sempre checa com o tradutor se houve todo um estudo por trás de uma sentença. Acontece. Como também acontece de uma tradução vir com erros básicos como “pau” no lugar de “pai” e os mais bizarros que mudam o sentido, tipo: “Fulano caiu da escada” em vez de “Fulano subiu as escadas”.

É aquela coisa: a melhor tradução entre duas línguas é o beijo. O segredo do negócio é a comunicação. Nem todo tradutor pede o arquivo final depois de revisado, mas é um direito do profissional. Inclusive, encorajo para que o façam. O que fere a relação é a falta de bom senso, seja do editor na hora de fazer uma emenda, seja do tradutor na hora de reclamar da emenda. Os dois precisam entrar num acordo, mesmo que seja “vamos concordar em discordar”.

Agora, o que não podemos concordar em discordar de jeito nenhum é que o texto precisa se manter fiel à voz do autor original. Isso não tem discussão. Emendas serão feitas, seja para deixar um trecho mais natural, mais claro, compreensível, ou para corrigir erros, mas nunca, jamais para modificar o estilo de quem criou a história.

Se eu tenho algum conselho para oferecer a um tradutor que está começando agora é: antes de traduzir, é preciso aprender a ler, interpretar e fazer pesquisa (muita pesquisa). Uma pessoa pode saber falar diversas línguas, mas, se não tiver a semântica como maior aliada, tudo pode dar errado. E é capaz de você acabar no mesmo inferno que a pessoa que disser meu nome em vão. É possível. Já vi acontecer.

Resumo (em uma casca de noz): o universo abraça as galáxias como uma mãe abraça um filho. É só manter os planetas e as estrelas em ordem que ninguém sairá ferido. Isso não é uma ameaça. Beijo, fui.

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