O lado B da vida autônoma

Largar um emprego tradicional com carteira assinada para ter o próprio negócio está na moda. Basta uma rápida busca no Google para receber conselhos de milhares de coaches e especialistas em bem-estar, propósito de vida e todo esse lero-lero bem empacotado com um bom design, alheio a muitas questões que devem ser consideradas nessa decisão.

Como toda tendência que surge, os benefícios de ser freelancer saltam aos olhos de uma sociedade historicamente massacrada por um estilo de vida e de trabalho problemático e usurpador. É o pote de ouro no final do arco-íris. E, por trás das aparências, ficam os percalços de ser microempresário: excesso de trabalho, problemas de postura e, um inimigo menos comentado, o isolamento.

Porque trabalhar em casa te fará mais recolhido, sim. Agora, além de ser seu lugar de descanso, sua casa, ou parte dela, será seu escritório. Poupam-se horas e energia com o deslocamento, ganha-se mais tempo para lidar com as coisas de trabalho, que são bem mais volumosas que o traduzir. Quem já vive o home office também sabe que o cansaço bate, talvez de forma mais lenta, mas bate. E, quando ele te pega, você já está a poucos passos de distância daquela rede na varanda…. Você recusa o chopinho, posterga a visita à casa dos pais, remarca o cinema com as amigas. Faz isso uma, duas vezes, até virar hábito, sem perceber que está convivendo apenas com seus familiares próximos, humanos ou de estimação.

E, tudo bem, não estamos aqui para julgar as preferências de sociabilidade de ninguém, até porque os tempos estão difíceis. Trabalhar em casa nos deixa mais seletivos quando o assunto é quem merece o meu tempo. Arrisco dizer que, assim, passamos a tecer relações até mais sadias e significativas. Porém, somos seres sociais, e adivinha? Nossos negócios também o são.

Sigam-me os bons: ter um negócio é vender o meu tempo em forma de produto para alguém. Hoje, com o avanço tecnológico, dispensamos o cara a cara para vender, e isso acelera os lucros, fato. Mas, em tempos de hiperconexão, um diferencial dos prósperos ainda é o contato além-telinha. E é aí que o tradutor entocado tropeça, pois a presença virtual nem sempre basta.

Já ouviram falar da sociedade em rede, uma teoria desenvolvida pelo sociólogo espanhol Manuel Castells? O termo é título do primeiro volume da trilogia A era da informação: economia, sociedade e cultura, que busca entender o papel das novas tecnologias da informação e da comunicação nas relações humanas (políticas, econômicas e sociais). Em sua obra, Castells afirma que as relações humanas cada vez mais se darão em um ambiente multimídia, cujos impactos ainda serão estudados – já vimos esse filme antes, ou melhor, somos protagonistas dele aqui e agora. Ouso ir um pouco além de Castells: acredito que esse potencial de organização em rede só pode ser encorajado por algo tão impactante como a internet. Graças a esse recurso, hoje, temos consciência dessa capilaridade, mas sempre a tivemos.

A riqueza das redes se sustenta na simultaneidade, na velocidade e no desapego geográfico com que as relações humanas passaram a se estabelecer. Ironicamente, também vejo nesses três pilares a ruína da comunicação, o que gera problemas de toda ordem. Porque os tempos hiperconectados da virtualidade também trazem novas dinâmicas de sociabilidade que ainda não entendemos direito ou dominamos, nublando a comunicação. É o drama da etiqueta das redes sociais: o que significa visualizar e não responder? Pega bem responder cliente com emoticon ou risos (hahaha, kkkk ou rs)? Parece bobo, e até pode ser, mas é, acima de tudo, real. São tantos códigos novos criados e recriados a todo momento que a comunicação se torna falha, e essa culpa não é da infraestrutura, mas do componente humano: somos complexos, difíceis, emotivos…

E é por isso que precisamos sair da toca. Se uma treta no grupo de WhatsApp da família toma proporções cabalísticas, imagine um disse-me-disse com um cliente-colega ou cliente-cliente. Negócios saudáveis são sociáveis, gente. E todos os malefícios do isolamento para a vida social e pessoal são os mesmos para a vida profissional, porque, quando autônomos, somos uma coisa só. E o segredo, mais uma vez, é aquela clássica receita de bolo: equilíbrio, nem tanto ao mar, nem tanto à terra…

Categorias: Networking

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1 Comentário

  1. Excelente texto, Carolina.
    Uma das dificuldades é também a gestão do tempo…como você mesmo fala…estar a poucos metros de uma rede na varanda, um sofá acolhedor, é algo desafiador…precisamos manter o foco. Mas ter a liberdade de gerir nossos próprios horários – isso não tem preço, rs.

    Mariana

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