O tradutor e seu produto final: a palavra

Apesar de todos os tradutores da Ccaps terem formação acadêmica e passarem por um processo seletivo criterioso, notamos que grande parte dos problemas recorrentes nas traduções que recebemos tem uma origem muito básica: a falta de domínio de regras fundamentais do português. Erros dispensáveis de concordância, regência, acentuação e ortografia tem eliminado cada vez mais candidatos na fase de avaliação do currículo, além de revelarem que muitos profissionais, apesar de sua formação universitária na área de Letras, andam descuidando de aspectos essenciais da língua.

Nas próximas linhas, você irá ler um pouco sobre como se deu o processo de identificação desses problemas pela perspectiva da revisora de uma empresa de tradução, a Ccaps, que atua há 15 anos no mercado de Localização. Como controlar a qualidade fornecida por aproximadamente 100 tradutores freelance? Como se dá a relação remota entre tradutor e revisor? Quais são os problemas textuais mais frequentes? Se alguma dessas perguntas despertou seu interesse, puxe uma cadeira e pegue uma xícara de café, porque eu tenho uma história para contar.

 

Vaga de Language Specialist

Para lidar com o problema da qualidade, no início de 2012 a Ccaps investiu na contratação de uma Language Specialist (esta que vos escreve). Com isso, a ideia era dispor de uma pessoa totalmente dedicada a acompanhar de perto as traduções feitas pelos fornecedores, o que possibilitaria mapear a qualidade fornecida por cada um deles. Depois de várias etapas de um processo seletivo complexo e digno de muito frio na barriga, os diretores da Ccaps viram em mim uma pessoa apta a ocupar a vaga.

No entanto, o desafio estava só começando. Como minha experiência em tradução até o momento se resumia ao meu estágio em uma editora de Literatura Cristã, minha chegada à área de Localização teve que acontecer aos poucos. Passei os três primeiros meses na Ccaps fazendo um treinamento intensivo de tradução e recebendo diariamente feedbacks cada vez mais criteriosos, até me sentir madura o bastante para começar a elaborar feedbacks por mim mesma.

Depois de alguns meses, finalmente eu estava preparada para andar com minhas próprias pernas. Desde então, dedico praticamente 100% do meu tempo ao contato direto com os fornecedores. Envio feedbacks detalhados a eles (isso mesmo, aqueles que eu também recebi aos montes), e a intenção de cada contato é ajudá-los a identificar os pontos fracos e a ressaltar os pontos fortes do texto. Como faço isso? Atualmente, nosso processo de avaliação se dá pela ferramenta que chamamos de LQA.

 

LQA – Language Quality Assurance

O processo de controle de qualidade, chamado de LQA (acrônimo de Language Quality Assurance), foi plenamente implementado em abril de 2013. Com ele a Ccaps buscava formalizar sua estrutura de acompanhamento da qualidade, além de oferecer resultados consistentes, tanto para uso interno como para uso externo, na forma de comentários sobre a qualidade das traduções fornecidas pelos colaboradores.

Ao implantar o LQA, um dos objetivos da Ccaps era avaliar sistematicamente a qualidade dos textos enviados pelos tradutores, contribuindo para o aprimoramento técnico e profissional de cada fornecedor avaliado. Além disso, mapear a qualidade com os resultados do processo de LQA é uma excelente maneira de orientar os gerentes de projeto quanto ao controle dos trabalhos em produção.

No arquivo de LQA, é listado todo e qualquer erro detectado em uma amostra de texto que pode variar de 800 a 2000 palavras. Cada erro é categorizado conforme sua natureza (Gramática? Estilo? Terminologia? Instrução?) e vem acompanhado por uma sugestão de correção, bem como um comentário ou alguma explicação técnica. Com isso, é possível oferecer soluções específicas para os problemas recorrentes e até mesmo propor materiais direcionados de estudo.

Em caso de discordância das correções sugeridas, todos os tradutores podem (e devem!) sempre retornar o contato com o revisor (na maioria das vezes, eu). Assim, seguimos trocando ideias sobre o processo de revisão, buscando sempre aprimorar os dois lados da história. No fim do ano cada tradutor recebe um resumo geral de seu próprio desempenho, onde é possível determinar exatamente em que momentos houve queda/aumento da qualidade do serviço prestado.

Como já comentei no início deste artigo, o LQA nos ajudou a observar que quase metade dos problemas recorrentes nos textos está na falta de domínio de regras do português, e notamos que isso independe de formação acadêmica ou tempo de experiência. Outra grande parcela dos erros está relacionada a problemas simples de tradução, como palavras que foram apagadas do texto ou que simplesmente não foram traduzidas, por distração. Caso tenha interesse em saber detalhadamente como funciona a estrutura do processo e quais foram nossas impressões sobre os resultados das avaliações feitas até hoje, recomendo muito a leitura do nosso whitepaper sobre o assunto.

 

“Criar valor viabilizando a comunicação”

Quem é revisor sabe como pode ser árdua e ingrata a tarefa de apontar os aspectos negativos do trabalho de alguém, e nem sempre é fácil imprimir um tom otimista a um feedback negativo. Muito além do conhecimento lingüístico, revisar um texto e avaliar um tradutor requer paciência, humildade e discernimento. Além disso, nossa preocupação não está em somente mostrar os erros; é preciso indicar o caminho para os acertos, e acreditamos em fazer isso despertando a confiança do avaliado.

Pensando assim, com o passar dos anos vimos que essa medida de acompanhamento e avaliação nos rendeu excelentes frutos. Nossas pesquisas de satisfação indicam que os tradutores se sentem cada vez mais confiantes em trabalhar conosco, mostrando-se bastante satisfeitos com o canal de comunicação aberto nos últimos anos. Além da implementação do processo de LQA e feedback, outras abordagens aos problemas linguísticos (como palestras em congressos e webinars sobre o tema) já se mostraram eficazes nos resultados das últimas avaliações.

Voltando ao dia da minha entrevista para a vaga de Language Specialist, um dos diferenciais da Ccaps que mais despertou meu interesse foi a preocupação não apenas em avaliar o trabalho do tradutor, mas também em deixá-lo ciente da avaliação. Desde aquele momento, percebi que a intenção da empresa ia muito além de apenas apontar defeitos: a Ccaps acredita de verdade na importância de informar o tradutor e ouvir o que ele tem a dizer. Naquele momento, percebi que a empresa realmente faz jus a sua missão de “criar valor viabilizando a comunicação além dos limites da língua”.

Além da comunicação aberta com o departamento linguístico, a Ccaps prima por oferecer uma estrutura que funcione da melhor maneira possível para o tradutor. Nosso setor financeiro tem um nível nulo de inadimplência; isto é, em 15 anos de empresa, nunca houve sequer um atraso de pagamento. Contamos com engenheiros de localização prontos para instruir os tradutores em caso de problemas técnicos com as ferramentas, além de gerentes de projeto que sempre fazem o possível (e o impossível, pode apostar) para negociar os melhores prazos. É claro, nem sempre conseguimos agradar a todos, mas certamente nos esforçamos bastante para deixar os tradutores muito confortáveis.

 

Conclusão: não diga que eu não avisei

Como revisora e avaliadora, o recado que sempre procuro deixar para os tradutores é: leiam bons textos, estudem com o auxílio de fontes confiáveis e segurem as rédeas do português. Talvez a deficiência da qualidade do seu texto não esteja atrelada única e exclusivamente ao seu número de graduações; o problema pode estar na falta de uma leitura simples, mesmo que rápida, do que você acabou de traduzir.

Como contratante, meu recado é: por melhor que seja o seu currículo e por mais completa que seja sua formação acadêmica, ter um português deficiente não garantirá muitas chances de sucesso em boas empresas de tradução. Pode observar, as agências mais cobiçadas pelos freelances dispõem de um departamento linguístico estruturado, e seus revisores estão de olhos muito abertos. É claro, faça muitos cursos e participe de quantos eventos você puder, mas mantenha em mente que isso não é tudo.

Por fim, meu conselho como colega de profissão é: valorize-se buscando clientes rentáveis não apenas pelo ponto de vista financeiro, mas que também se preocupem com o seu desenvolvimento profissional. E por falar em clientes, entenda o seguinte de uma vez por todas: o tradutor é um vendedor de palavras, e nenhuma empresa séria está disposta a comprar esse produto com avaria. Tenha esmero ao usar suas palavras, pois elas são o seu ganha pão, e não é sábio simplesmente dispará-las de qualquer jeito por aí. Cuide bem da sua vitrine, principalmente nas mídias sociais, escreva de modo a atrair clientes interessantes e depois volte para compartilhar sua história de sucesso comigo.

Se os seus olhos treinados notaram os erros de português inseridos propositalmente neste artigo, você já ganhou muitos pontos positivos para fazer um teste na Ccaps. Basta enviar um e-mail para msiqueira@ccaps.net listando os erros em questão e propondo a correção para cada um deles, com base na devida explicação formal. Atenção: preferências não contam; liste somente os erros que podem ser justificados e corrigidos com base em gramáticas/dicionários. Boa sorte!

Categorias: Qualidade

Tags: ,

2s Comentários

  1. Oi, Mitsue. Gostei muito do seu artigo. Eu já tive alguns dos meus projetos revisados e em um deles a revisora me enviou algumas observações referentes à pontuação. Quando recebi os comentários, não me senti constrangida. Muito pelo contrário, fui pesquisar a respeito e fazer uma revisão na gramática, o que me ajudou muito. Esse contato entre o tradutor e o revisor é de suma importância. L

    Resposta
    • Obrigada por compartilhar suas impressões, Ligia! De fato, o contato entre tradutores e revisores é muito importante para o desenvolvimento da qualidade textual (de ambas as partes, não só do tradutor), mas nem sempre esse elo existe. Aliás, aproveito o gancho do seu comentário para sugerir a leitura do artigo “Quando a qualidade ultrapassa os limites do texto”, que fala um pouco mais sobre como a relação tradutor – agência – revisor pode ser delicada.

      Resposta

Deixe um comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado.