Por uma iconoclastia do tradutor

 iconoclastia

No VI Congresso Internacional da Abrates, em 2015, alguns palestrantes dedicaram suas falas para tratar de um tema delicado na nossa profissão: erros de tradução. Fabiano Cid (Ccaps) apresentou uma análise cirúrgica dos tipos de equívocos cometidos, possível através do processo de Language Quality Assurance, implementado em sua empresa desde 2013. Já na palestra de encerramento, Ulisses Wehby de Carvalho, sempre bem-humorado, revelou tanto suas gafes mais constrangedoras quanto suas sacadas geniais para situações de sufoco dentro da cabine. Assisti às duas palestras e, para variar, saí delas pensativa, tentando mergulhar mais fundo em seus respectivos propósitos.

Sejamos francos: a sina do ser humano é a busca por um grau inatingível de perfeição, enquanto o erro é a nossa essência. Controverso, não? Prefiro encarar essa ironia da vida como uma oportunidade para autoanálise e melhora enquanto pessoa e, por que não, enquanto profissional de um setor complexo. Pois mexer com idiomas é bem mais complicado do que parece; é brincar com blocos de Lego maleáveis e moldáveis, que ora se encaixam de um jeito, ora de outro. O encaixe perfeito, não raro, é mais subjetivo e sensitivo (aquele feeling de que um sinônimo soa melhor que outro, por exemplo) do que exato e talhado em pedra, ou até depende de forças exteriores ao tradutor (exigências do cliente, especificidades de um determinado projeto, etc.). Parafraseando Fabiano Cid, a nossa ciência (traduzir e interpretar) não é exata! Então por que nos doemos tanto com erros?

Assumir a não exatidão da nossa profissão não é ser permissivo aos erros, aceitá-los como se não fossem um problema. É claro que são. Porém, o mais preocupante é a forma como lidamos com eles e como deixamos que afetem o nosso desempenho geral. Falo por experiência própria: fico para morrer quando a revisão pega um erro meu. A sensação de quase nudez e vergonha perante a possibilidade de outros pares me acharem uma fraude tremenda é o gatilho que basta para eu questionar todo o meu posicionamento profissional: “O que eu estou fazendo nesse mercado?! É agora que descobrem que eu não passo de uma fraude!”

Existem duas questões nesse discurso de autopiedade. Além de deprimente e infantil, ele parte do pressuposto de que um deslize será a fonte de desgraça de toda uma carreira cuidadosamente cultivada, com muitas conquistas positivas e motivos de orgulho. Ele se alicerça na falsa noção de que ser um bom profissional é ser perfeito e, muito pior, que não ser excelente o tempo todo basta para você desistir de tudo e ir vender sua arte na praia. Me dei conta de o quanto esse raciocínio é injusto comigo lendo outra colega, que disse que “não ser excepcional não é razão para desistir, principalmente se você ama o que faz”.

A segunda questão é a aparência profissional e a interpretação igualmente equivocada que temos dela. No primeiro evento do setor a que fui, fiquei deslumbrada com tantos tradutores e intérpretes bem conectados, muito conhecedores do ramo e seguros por estarem ali, pavoneando sua satisfação e sucesso no mercado da tradução. Oras, mais normal que uma tradutora iniciante assustada só um bando de tradutores experientes exalando suas raízes bem fincadas no árido (será?) terreno tradutório. Não há mal em nenhum desses comportamentos; aliás, arriscaria dizer que eles são involuntários e instintivos: quem não fica na defensiva ao enfrentar o desconhecido? Quem não ostenta, de forma consciente ou não, o próprio conforto em estar estabelecido?

Até então estamos falando de seres humanos comuns. O problema surge quando aparência e presença profissional se confundem com endeusamento. Isso acontece quando tudo o que fulano diz ou faz é tomado como verdade absoluta. O endeusado vira referência não só de profissionalismo, mas de perfeição (o que é um problema, como vimos acima). Quem o endeusa cria barreiras emocionais e psicológicas que dificultam seu avanço na carreira, já que tudo fica inatingível: “Eu nunca vou ser como Beltrano.” Quer saber de uma coisa? Não vai mesmo, não. Mesmo que se caminhe a mesma estrada, a sua jornada é diferente daqueles que o acompanham, que vieram antes ou que virão depois de você. E não há problema algum nisso. Você será você, em uma versão melhorada de si. Fora que esse jogo de pedestais dita uma lógica cruel de exigências desumanas que pode gerar preconceitos, julgamentos impulsivos e impacientes que, por sua vez, levam a rixas, discussões infrutíferas nos fóruns profissionais, intransigência, entre outros problemas. E esses problemas, a meu ver, desgastam muito mais a reputação de um profissional do que um deslize de concordância.

É claro que diminuir a incidência de erros deve ser uma meta constante para qualquer profissional. Porém, é igualmente imprescindível tentar descobrir a sua fonte, pois nem todo erro é fruto de incompetência e ignorância. Comece olhando para o próprio umbigo. Como está meu nível de concentração e comprometimento com o projeto? E meu ambiente de trabalho? É barulhento? Desconfortável? Estou pecando na pesquisa? Eu sei usar corretamente as CAT tools? É de cair para trás o tanto de fatores que podem nos induzir ao erro. E, se errar, assuma, não invente desculpas ou deixe que esse deslize contamine todo o seu trabalho. Humildade e sinceridade são pilares para uma boa relação colaborativa, seja com agências ou clientes diretos. Por fim, pense que os bons profissionais precisam errar muito, pois é apenas com os tropeços que pegamos experiência… e que temos história para contar!

Categorias: Vida de tradutor

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6s Comentários

  1. É isso aí, Carol. Cada um tem uma vivência única, então nunca há um caminho das pedras que leva ao mesmo lugar para todos. O importante é seguir cada um no seu próprio caminho das pedras para chegar cada vez mais longe e se tornar cada vez melhor. 🙂

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  2. Carolina, seu artigo é perfeito. Parabéns! Quando você fala que ficamos “para morrer” quando alguém pega um erro nosso, é a mais pura verdade porque queremos, mesmo que muitos falem o contrário, ser perfeitos no que fazemos. E isso vale em qualquer profissão. Na minha opinião, é entender o que houve, aprender (se for o caso) e seguir adiante. O mundo não acaba por causa disso. Depois, você comenta sobre egos e endeusamentos. Concordo, plenamente. O que acontece é que aqueles que têm muitos anos de carreira e muitos projetos de êxito querem demonstrar essa conquista aos que estão iniciando. É como se fossem phD na profissão. Na minha singela opinião, o melhor é absorver as dicas, sugestões e tudo de bom que esses profissionais possam passar e deixar pra lá os estrelismos, que felizmente não são muitos. Cada um tem suas próprias qualidades e, certamente, as vitórias virão. E, para finalizar, um comentário sobre discussões que normalmente eu vejo no facebook. Infelizmente, talvez pelo estresse diário, pela falta de inteligência emocional ou até mesmo por vivenciarem uma situação não muito favorável, algumas pessoas perdem a paciência e acabam sendo ásperas com as outras, que são colegas de profissão. Nesse caso, o que aconselho é não levar adiante uma discussão e focar no objetivo que quer atingir, o que é muito mais importante.

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