Quando a qualidade ultrapassa os limites do texto

Era uma vez um colega tradutor trabalhando para um gerente de projetos (PM, Project Manager) de uma agência. Segundo as práticas recomendadas da agência, o único contato dos tradutores deveria ser feito com os PMs, ninguém mais. Essa é uma prática muito comum das agências que prezam pela confidencialidade de seus recursos humanos. O colega tradutor seguiu trabalhando sem problemas, até que começou a ter dúvidas e deixar algumas pontas soltas que só o revisor do texto poderia entender.

Então, nosso colega decide acertadamente informar a situação ao PM por e-mail, alegando que o contato com o revisor seria fundamental para manter a boa qualidade do texto. Pressionado pelo prazo, que estava correndo (o relógio não dá trégua), o tradutor finalmente recebe por Skype a resposta do PM, que disse não ser possível entrar em contato com o revisor naquele momento, sabe-se lá por quê.

Diante disso, nosso colega se vê em um dilema: entregar um texto mal traduzido e cheio de pendências? Ou buscar o contato do revisor por outros meios que não a empresa? Colocando em primeiro lugar a qualidade do texto, nosso colega tradutor escolhe a segunda opção e segue, por si só, em busca do contato do revisor.

Pesquisa aqui, pesquisa ali, buscando o nome da empresa em várias redes profissionais na internet, nosso colega tradutor finalmente encontra a pessoa que ele procura: o revisor do texto. Sentindo-se um tantinho receoso, ele entra em contato mesmo assim. Os dois trocam ideias sobre o texto, esclarecem dúvidas, viram amigos de infância, nosso colega tradutor consegue fornecer um trabalho de ótima qualidade e todos vivem felizes para sempre.

Toda essa historinha é verdadeira, mas nem sempre tem final feliz. Às vezes pode terminar mal, com uma simples advertência, ou muito mal, com o fim da parceria entre o tradutor e a agência. Mas por que isso acontece? O sonho de toda agência não é trabalhar com tradutores competentes e comprometidos com a qualidade do texto? Sim e não. Explico, mas vai lá pegar uma xícara de café porque o papo é longo. Eu espero.

Bom, vamos ao primeiro ponto: certamente nosso colega tradutor se expôs a um risco bem alto ao buscar o contato direto com o revisor, passando por cima da decisão do cliente, o PM. Mesmo que a relação do freelancer não envolva um vínculo empregatício como a relação entre empresa e um funcionário de carteira assinada, no fim das contas, é a empresa do PM que vai pagar ao colega tradutor pelo trabalho realizado. Então, imagine se o PM descobre que nosso colega decidiu seguir por outros caminhos para chegar ao contato direto com o revisor, contradizendo uma prática da empresa ou até mesmo uma decisão implícita dele? Por melhores que fossem as intenções do tradutor, está armado todo o circo para um possível faniquito (justificadíssimo) do PM.

Por outro lado, há de se reconhecer que o PM deveria ter informado, por meios oficiais, que o contato direto entre tradutor e revisor não deve existir, e o Skype não é a maneira mais profissional de fazer isso. Perdoem a audácia, gerentes que me leem, mas tomo a liberdade de dar um dolorido puxão de orelha: procurem concentrar todas as informações referentes aos projetos no e-mail da empresa. Não é à toa que muito provavelmente vocês têm um seunome@empresa.com, e muito provavelmente o chefe espera que vocês façam bom uso desse endereço. Portanto, parem agora mesmo de passar informações importantes única e exclusivamente por Facebook, Skype, WhatsApp e afins. Sejamos profissionais.

Enfim, vamos voltar ao assunto inicial. A empresa em que trabalho acha fundamental abrir o canal de comunicação entre o tradutor e o revisor, mas nem todas as empresas pensam assim. Como revisora, sempre fui instruída a me colocar 100% à disposição dos tradutores quando mando feedback para eles, seja por e-mail, telefone, sinal de fumaça ou código morse. Nós conversamos mesmo: concordamos, discordamos, trocamos ideias… E olha que eu nunca sofri ameaças de morte. Pelo contrário, posso dizer que amizades muito legais resultaram desse processo.

Por outro lado, entendo que muitas agências prefiram mediar esse contato. Infelizmente, no mercado de tradução (e de revisão), tem muita gente que passa longe do profissionalismo. Então, deixar essas pessoas livres para fazer contato direto com profissionais de verdade pode ser arriscado. Imagine, por exemplo, uma situação em que um tradutor agressivo discorda de uma revisão pertinente que recebeu e decide procurar o revisor por outros meios somente para ofendê-lo? Diante disso, o revisor comenta a situação com o PM e, sentindo-se desprotegido pelo acordo de confidencialidade da empresa, decide interromper a parceria. Eis o nosso amigo PM dando seu segundo faniquito. E, mais uma vez, com toda razão.

Enfim, por mais puras que fossem as intenções do nosso colega tradutor, acredito que o melhor a fazer seria relacionar todas aquelas dúvidas e pontas soltas em uma listinha, enviar ao PM por e-mail (não por Skype!) e pedir que ele mesmo entrasse em contato com o revisor. Infelizmente, nunca saberemos ao certo se o PM vai ou não deturpar nossas informações, mas é um risco que se corre, e certamente é um risco muito menor do que o de passar por cima da decisão do PM. Além do mais, essa é uma boa forma de você cumprir com a sua parte e de mostrar seu interesse em aprimorar a qualidade do trabalho.

Eu sei, é bom demais entregarmos a tradução com a melhor qualidade possível, mas nem sempre dá. Como revisora (e das neuróticas, eu assumo!), foi complicado me acostumar com isso. No entanto, com o passar do tempo, percebi que não receber as respostas por que tanto ansiamos é mais comum do que se imagina. Não se angustie por não ter conseguido aquela frase ideal, o termo certo ou por não ter entregue o texto redondinho. De verdade, nem sempre dá. Não se martirize. Mantenha em mente que cada empresa adota uma prática e cada cliente trabalha de um jeito. Além do empenho máximo para aprimorar a qualidade do texto, cabe aos bons tradutores adaptar-se a esses tantos cenários. Seja um bom tradutor, mas também seja um bom gerente de riscos e não atropele suas parcerias com decisões precipitadas.

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4s Comentários

  1. Poderia simplesmente ter enviado observações para o revisor que seriam transmitidas através do PM. Resumindo: traduza e esqueça. O revisor que se vire. Não fique querendo ser “o tradutor perfeito”. Achei a solução de procurar o revisor altamente ineficiente. Deu mais trabalho ao tradutor e, no final das contas, deu o mesmo resultado. Além disso, não sei como seria possível ter 100% de certeza que o revisor seria aquele indivíduo. Trabalho desnecessário, na minha opinião. E frescura.

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    • O Skype tem um grande valor comunicacional como a ferramenta de bate-papo que se propõe a ser, Michel, sem dúvidas. No entanto, não aprovo o uso único e exclusivo do Skype (nem do Facebook, WhatsApp e afins) para envio de informações oficiais de uma empresa ou de um projeto, principalmente quando temos um e-mail corporativo criado para este fim. Nesses casos, o e-mail é uma forma muito mais profissional de documentar uma relação de trabalho, mas nada nos impede de usar o Skype de maneira complementar. Afinal, quem nunca mandou um e-mail e logo depois recorreu ao Skype (e a outros) para confirmar se o tradutor recebeu a mensagem ou não? Respeitados os perfis e as funções de cada ferramenta, todas trabalham a nosso favor 🙂

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