tradutor – Traduzine https://traduzine.com Sat, 17 Sep 2016 19:14:13 +0000 pt-BR hourly 1 Por uma iconoclastia do tradutor https://traduzine.com/por-uma-iconoclastia-do-tradutor/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=por-uma-iconoclastia-do-tradutor https://traduzine.com/por-uma-iconoclastia-do-tradutor/#comments Thu, 01 Sep 2016 15:51:40 +0000 http://traduzine.com/?p=939   No VI Congresso Internacional da Abrates, em 2015, alguns palestrantes dedicaram suas falas para tratar de um tema delicado na nossa profissão: erros de tradução. Fabiano Cid (Ccaps) apresentou uma análise cirúrgica dos tipos de equívocos cometidos, possível através do processo de Language Quality Assurance, implementado em sua empresa desde 2013. Já na palestra de […]

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No VI Congresso Internacional da Abrates, em 2015, alguns palestrantes dedicaram suas falas para tratar de um tema delicado na nossa profissão: erros de tradução. Fabiano Cid (Ccaps) apresentou uma análise cirúrgica dos tipos de equívocos cometidos, possível através do processo de Language Quality Assurance, implementado em sua empresa desde 2013. Já na palestra de encerramento, Ulisses Wehby de Carvalho, sempre bem-humorado, revelou tanto suas gafes mais constrangedoras quanto suas sacadas geniais para situações de sufoco dentro da cabine. Assisti às duas palestras e, para variar, saí delas pensativa, tentando mergulhar mais fundo em seus respectivos propósitos.

Sejamos francos: a sina do ser humano é a busca por um grau inatingível de perfeição, enquanto o erro é a nossa essência. Controverso, não? Prefiro encarar essa ironia da vida como uma oportunidade para autoanálise e melhora enquanto pessoa e, por que não, enquanto profissional de um setor complexo. Pois mexer com idiomas é bem mais complicado do que parece; é brincar com blocos de Lego maleáveis e moldáveis, que ora se encaixam de um jeito, ora de outro. O encaixe perfeito, não raro, é mais subjetivo e sensitivo (aquele feeling de que um sinônimo soa melhor que outro, por exemplo) do que exato e talhado em pedra, ou até depende de forças exteriores ao tradutor (exigências do cliente, especificidades de um determinado projeto, etc.). Parafraseando Fabiano Cid, a nossa ciência (traduzir e interpretar) não é exata! Então por que nos doemos tanto com erros?

Assumir a não exatidão da nossa profissão não é ser permissivo aos erros, aceitá-los como se não fossem um problema. É claro que são. Porém, o mais preocupante é a forma como lidamos com eles e como deixamos que afetem o nosso desempenho geral. Falo por experiência própria: fico para morrer quando a revisão pega um erro meu. A sensação de quase nudez e vergonha perante a possibilidade de outros pares me acharem uma fraude tremenda é o gatilho que basta para eu questionar todo o meu posicionamento profissional: “O que eu estou fazendo nesse mercado?! É agora que descobrem que eu não passo de uma fraude!”

Existem duas questões nesse discurso de autopiedade. Além de deprimente e infantil, ele parte do pressuposto de que um deslize será a fonte de desgraça de toda uma carreira cuidadosamente cultivada, com muitas conquistas positivas e motivos de orgulho. Ele se alicerça na falsa noção de que ser um bom profissional é ser perfeito e, muito pior, que não ser excelente o tempo todo basta para você desistir de tudo e ir vender sua arte na praia. Me dei conta de o quanto esse raciocínio é injusto comigo lendo outra colega, que disse que “não ser excepcional não é razão para desistir, principalmente se você ama o que faz”.

A segunda questão é a aparência profissional e a interpretação igualmente equivocada que temos dela. No primeiro evento do setor a que fui, fiquei deslumbrada com tantos tradutores e intérpretes bem conectados, muito conhecedores do ramo e seguros por estarem ali, pavoneando sua satisfação e sucesso no mercado da tradução. Oras, mais normal que uma tradutora iniciante assustada só um bando de tradutores experientes exalando suas raízes bem fincadas no árido (será?) terreno tradutório. Não há mal em nenhum desses comportamentos; aliás, arriscaria dizer que eles são involuntários e instintivos: quem não fica na defensiva ao enfrentar o desconhecido? Quem não ostenta, de forma consciente ou não, o próprio conforto em estar estabelecido?

Até então estamos falando de seres humanos comuns. O problema surge quando aparência e presença profissional se confundem com endeusamento. Isso acontece quando tudo o que fulano diz ou faz é tomado como verdade absoluta. O endeusado vira referência não só de profissionalismo, mas de perfeição (o que é um problema, como vimos acima). Quem o endeusa cria barreiras emocionais e psicológicas que dificultam seu avanço na carreira, já que tudo fica inatingível: “Eu nunca vou ser como Beltrano.” Quer saber de uma coisa? Não vai mesmo, não. Mesmo que se caminhe a mesma estrada, a sua jornada é diferente daqueles que o acompanham, que vieram antes ou que virão depois de você. E não há problema algum nisso. Você será você, em uma versão melhorada de si. Fora que esse jogo de pedestais dita uma lógica cruel de exigências desumanas que pode gerar preconceitos, julgamentos impulsivos e impacientes que, por sua vez, levam a rixas, discussões infrutíferas nos fóruns profissionais, intransigência, entre outros problemas. E esses problemas, a meu ver, desgastam muito mais a reputação de um profissional do que um deslize de concordância.

É claro que diminuir a incidência de erros deve ser uma meta constante para qualquer profissional. Porém, é igualmente imprescindível tentar descobrir a sua fonte, pois nem todo erro é fruto de incompetência e ignorância. Comece olhando para o próprio umbigo. Como está meu nível de concentração e comprometimento com o projeto? E meu ambiente de trabalho? É barulhento? Desconfortável? Estou pecando na pesquisa? Eu sei usar corretamente as CAT tools? É de cair para trás o tanto de fatores que podem nos induzir ao erro. E, se errar, assuma, não invente desculpas ou deixe que esse deslize contamine todo o seu trabalho. Humildade e sinceridade são pilares para uma boa relação colaborativa, seja com agências ou clientes diretos. Por fim, pense que os bons profissionais precisam errar muito, pois é apenas com os tropeços que pegamos experiência… e que temos história para contar!

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o ego ninguém traduz FINAL

Antes de começar a falar sobre minha experiência como editora e meu trabalho com tradutores, gostaria de frisar que tudo o que eu disser NÃO poderá ser usado contra mim, simplesmente porque eu não apenas faço parte da Sociedade Secreta do Profissional do Livro como sou a fundadora, cofundadora, CEO, presidente, diretora financeira, gerente de marketing e estagiária de RH. Ou seja, quando você sequer imaginar a possibilidade de usar meu nome em vão, saiba que existe um lugar especial no inferno dos infernos reservados para pessoas que 1) não gostam de mim, 2) maltratam gatinhos e 3) dobram o livro.

Dito isso, posso começar a falar sobre um assunto muito divertido que jamais semeará a discórdia, que é a autoria do tradutor. O que é isso? O tradutor é autor do texto? Coautor? Até onde vai a liberdade daquele cara (ou moça – não sejamos sexistas) que adapta uma história para um idioma? O que ele deve levar em conta? O editor respeita esse trabalho? O tradutor fica chateado quando há muita interferência da editora que o contratou? Quando o editor pode interferir? Existe uma troca? Ou nada é justo e a vida de um tradutor é um turbilhão de memes de cabeças explodindo?

Quantas perguntas! E lhes asseguro que são todas excelentes e cabeludas, mas não impossíveis de se debater. Tenho certeza de que o Google e a Wikipédia sabem muito mais que eu e poderiam esclarecer suas dúvidas com mais pontaria, mas garanto-lhes que a cronologia, a disposição e o critério dos meus pensamentos são, no mínimo, interessantes e dignos de internação e talvez, só por isso, vocês se entretenham mais lendo este artigo.

Agora vamos ao que interessa…

O tradutor é um cara (ou moça) incrível! Adoro tradutores. Sem eles, minha carga horária de trabalho provavelmente seria de 10.500 horas por dia, o que significa que todos os editores do mundo morariam em Vênus, onde o dia é maior que o ano, só pra dar conta de tudo. Um bom tradutor é aquele que conhece a editora para a qual trabalha. Ele sabe exatamente o público a que se destina o livro que vai traduzir, a linguagem mais apropriada, o manual de padronização de cada editor, os poréns de cada idioma e, principalmente, ele entende melhor que ninguém a humanidade. É um mestre da psicologia, da antropologia, da sociologia e principalmente do neologismo.

Sim, o tradutor é pica das galáxias e todos nós amamos os tradutores, mas há algo que precisa ser dito: se o tradutor é pica das galáxias, o editor é O UNIVERSO E TUDO MAIS!

E o universo respeita a galáxia? É claro. A galáxia faz parte do sistema; sem ela, fica tudo breu, sem vida, sem luz. Mas o universo é que decide onde expandir o brilho com mais estrelas e onde inserir buracos negros para apagá-lo. Nossa! Tô até filosofando. Olha o que vocês me fizeram fazer!

A questão é que o tradutor é de fato o coautor do livro, mas o editor é quem vai, com muito carinho, lapidá-lo, sempre respeitando o original, é claro! É verdade que o editor interfere muito? Às vezes, sim, às vezes, não. E nem sempre é por motivos de tradução ruim ou de editor sem noção. Como editora, digo: antes de mudar qualquer coisa, a gente reflete sobre as palavras escolhidas pelo tradutor. E, como tradutora, acrescento que: quase sempre há um motivo para uma palavra estar ali e não outra, então dou minha palavra (que não poderá ser usada contra mim) de que nada é feito levianamente.

Ora, tem editor que gosta de mudar por mudar e “prefere” o texto de uma forma ou de outra, sem motivo aparente, e nem sempre checa com o tradutor se houve todo um estudo por trás de uma sentença. Acontece. Como também acontece de uma tradução vir com erros básicos como “pau” no lugar de “pai” e os mais bizarros que mudam o sentido, tipo: “Fulano caiu da escada” em vez de “Fulano subiu as escadas”.

É aquela coisa: a melhor tradução entre duas línguas é o beijo. O segredo do negócio é a comunicação. Nem todo tradutor pede o arquivo final depois de revisado, mas é um direito do profissional. Inclusive, encorajo para que o façam. O que fere a relação é a falta de bom senso, seja do editor na hora de fazer uma emenda, seja do tradutor na hora de reclamar da emenda. Os dois precisam entrar num acordo, mesmo que seja “vamos concordar em discordar”.

Agora, o que não podemos concordar em discordar de jeito nenhum é que o texto precisa se manter fiel à voz do autor original. Isso não tem discussão. Emendas serão feitas, seja para deixar um trecho mais natural, mais claro, compreensível, ou para corrigir erros, mas nunca, jamais para modificar o estilo de quem criou a história.

Se eu tenho algum conselho para oferecer a um tradutor que está começando agora é: antes de traduzir, é preciso aprender a ler, interpretar e fazer pesquisa (muita pesquisa). Uma pessoa pode saber falar diversas línguas, mas, se não tiver a semântica como maior aliada, tudo pode dar errado. E é capaz de você acabar no mesmo inferno que a pessoa que disser meu nome em vão. É possível. Já vi acontecer.

Resumo (em uma casca de noz): o universo abraça as galáxias como uma mãe abraça um filho. É só manter os planetas e as estrelas em ordem que ninguém sairá ferido. Isso não é uma ameaça. Beijo, fui.

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